tenho de me concentrar em concretudes
não posso deixar que abstrações me absorvam
(...)
admiro a pipa que, presa, voa livre
olho com desconfiança para a descida do asfalto
pego a caneta e o caderno: escrevo, escrevo ad infinitum
lavo as mãos compulsoriamente
(desculpa para friccioná-las)
tomo a flanela e limpo a poeira das capas
apalpo um livro, dois ou até três
desfolhando suas páginas, procurando...
agarro o halter e lhe enfio peso, e mais peso
dedilho o dicionário por aquela palavra
ajeito o lençol, o estico, tiro, deito, o amasso
passo a língua pelos lábios cortados pela secura
aliso o corpo modificado por um músculo que resolveu aparecer
(...)
avisto, de longe, um pássaro no ninho
e me surpreendo com seu sorriso pra mim
luto uma guerra interna que se externa no subinconsciente
sinto uma dor que não dói
um mar revolto se agita e se acalma diante dos olhos
virados para o eu
uma aurora boreal não-colorida colore a imagem fechada
subo ao abismo, à beira do precipício do prepúcio
e escorro, em jatos não constantes, e mato
e morro e corro e volto e borro a tinta na tela
que desenha o eu que desdenha de mim
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