quinta-feira, 31 de maio de 2012

zzzzzzz

preciso dormir; meus
olhos estão abertos
e eu me recuso fechá-los!

como estão os olhos teus?

não sei se posso
compará-los; comparar-nos...
para quê? sono.

então, continuo ou paro?

tenho tentado mantê-los
abertos para fugir
da loucura subjetiva
que comanda o agir

caso caia (eu) em
sono profundo, amedronto-me
com os oníricos augúrios
que me tentam despertar...

[mensagem codificada]

subject: unnamed
to: all

010010111011
10110001111
100010010110101
0001101110011
001001010100111
0000000000
1111111


+++

sábado, 12 de maio de 2012

[none]

tenho de me concentrar em concretudes
não posso deixar que abstrações me absorvam
(...)
admiro a pipa que, presa, voa livre
olho com desconfiança para a descida do asfalto
pego a caneta e o caderno: escrevo, escrevo ad infinitum
lavo as mãos compulsoriamente
(desculpa para friccioná-las)
tomo a flanela e limpo a poeira das capas
apalpo um livro, dois ou até três
desfolhando suas páginas, procurando...
agarro o halter e lhe enfio peso, e mais peso
dedilho o dicionário por aquela palavra
ajeito o lençol, o estico, tiro, deito, o amasso
passo a língua pelos lábios cortados pela secura
aliso o corpo modificado por um músculo que resolveu aparecer
(...)
avisto, de longe, um pássaro no ninho
e me surpreendo com seu sorriso pra mim
luto uma guerra interna que se externa no subinconsciente
sinto uma dor que não dói
um mar revolto se agita e se acalma diante dos olhos
virados para o eu
uma aurora boreal não-colorida colore a imagem fechada
subo ao abismo, à beira do precipício do prepúcio
e escorro, em jatos não constantes, e mato
e morro e corro e volto e borro a tinta na tela
que desenha o eu que desdenha de mim


+++

domingo, 15 de abril de 2012

Jogo

coisa de ferro com outras misturas
         chips, circuitos, fios de cobre
         plástico, resina, fibra de vidro
         roldanas, correntes, peças de encaixe
                     oléo, graxa
a transparência, a visão e o sol arcaico
          e luz, e calor, e vida

movimento da caixa; eu, preso: respiração de gás carbônico
             poeira preta, esfumaçada
             náusea, tonteira, dor de cabeça
             basta! da palavra para a ação
                      saída, pressa
a ausência, a solidão e a árvore
             e vida, e frescor, e sombra

eu e o universo de volta, em nosso estado primitivo

adeus, ônibus!


+++

domingo, 25 de março de 2012

À (moda) antiga

pego-te, com a firmeza
dum homem seguro,
e te coloco sobre a mesa
com um sentimento nada puro

lanço sobre ti
um líquido
aos poucos, bem devagar
para sentir os detalhes corpóreos
e ouvir teu leve arfar

percorro-te com a destreza
digna de quem conhece
tua revelada natureza

sinto-me, assim, menestrel
ao deslizar sobre ti,
virginal papel


+++

sábado, 17 de março de 2012

Manhã

joguei fora as flores / mantive o desarranjo
desfiz todo o enfeite
ignorei os odores, as cores,
as formas
esvaziei o engano de ornamentos
quebrei a coisa dura de barro
(água e terra desorganizados
cheios de si)
deslimitei a fronteira
que impedia o avanço
da matéria
presa para nada


+++